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Ômega-3 e Artrite Reumatóide
Dra. Andrea Dario Frias*
As doenças reumáticas ocupam o segundo lugar dentre as patologias crônicas, perdendo apenas para os distúrbios cardíacos, e são também uma das principais causas de afastamento do trabalho. Acredita-se que de cada cem pessoas em todo o mundo, 25 sofram de algum tipo de doença reumática. Entre as mulheres, a incidência é quatro vezes maior que nos homens.
A artrite reumatóide é uma síndrome crônica caracterizada geralmente por uma inflamação simétrica não específica das articulações periféricas, resultando quase sempre numa destruição progressiva das estruturas articulares e periarticulares. As causas da artrite reumatóide não são conhecidas, no entanto, acredita-se que fatores genéticos, anormalidades autoimunes ou infecções microbianas agudas ou crônicas possam desencadear a doença.
A doença que atingi principalmente as articulações dos dedos das mãos, joelhos, tornozelos e dedos dos pés, caracteriza-se pela infiltração de linfócitos T, macrófagos e células plasmáticas na membrana sinovial (camada interna da cápsula articular) e por um estado crônico inflamatório que envolve a superprodução de citoquinas pró-inflamatórias. Todo esse processo causa uma destruição progressiva da cartilagem e do osso, e nas articulações afetadas a membrana sinovial que normalmente é delicada, torna-se espessa e desenvolve pregas vilosas (1).
O tratamento utilizado na maioria dos pacientes é o repouso adequado, terapêutica antiinflamatória (antiinflamatórios não esteróides são as drogas mais comuns) e fisioterapia para manter a função articular e a massa muscular. A dieta, em geral, não é considerada dentro da terapêutica.
A ação dos ácidos graxos ômega-3
Inúmeros estudos experimentais, "in vitro" e clínicos têm sido desenvolvidos nas duas últimas décadas com o objetivo de avaliar os efeitos do consumo de alimentos ou cápsulas ricos em ácidos graxos ômega-3 (w-3 ou n-3) na artrite reumatóide (2,3).
Os ácidos graxos ômega-3 fazem parte da família dos ácidos graxos poliinsaturados que apresentam a 1ª dupla ligação a partir do terceiro carbono da cauda da molécula. Nos últimos anos, estudos comprovaram a importância desses ácidos graxos para a saúde das pessoas, principalmente do ácido eicosapentaenóico (EPA) e do docosahexaenóico (DHA) encontrados em peixes e respectivos óleos e do a-linolênico encontrado em certas sementes e óleos vegetais. De acordo com as pesquisas, esses ácidos graxos atuariam diretamente no desenvolvimento do cérebro e da retina; durante a gravidez, no desenvolvimento neurológico fetal; na redução do risco de doenças cardíacas, hipertensão e trombose e na resposta antiinflamatória e autoimune.
Vários estudos tem demonstrado que a composição de ácidos graxos das células inflamatórias e imunes é sensível à mudanças de acordo com a composição de ácido graxo da dieta. Em particular, a proporção de diferentes tipos de ácidos graxos poliinsaturados (PUFA) dessas células é prontamente alterada, o que nos leva a acreditar numa ligação entre o consumo de PUFA, inflamação e imunidade.
O ácido araquidônico, um ácido graxo poliinsaturado n-6, é precursor de prostaglandinas, leucotrienos e compostos relacionados que desempenham um importante papel no processo inflamatório e na regulação da imunidade. A síntese de eicosanóides através do ácido araquidônico e de citoquinas, pode causar uma destruição progressiva da cartilagem e do osso. A alimentação com ácidos graxos ômega-3, principalmente com EPA, resulta em substituição parcial do ácido araquidônico nas membranas das células, além de funcionar como um substrato para a ciclooxigenase e a lipooxigenase, dando origem a mediadores que freqüentemente apresentam funções biológicas diferentes daquelas formadas pelo ácido araquidônico, diminuindo a produção de eicosanóides e a produção de citoquinas pró-inflamatórias, e, reduzindo espécies de oxigênio reativo e a reatividade dos linfócitos T (1,4). De acordo com Kremer (5), doses de 3g diárias de ácido eicosapentaenóico e docosahexaenóico estão associadas com reduções significantes de leucotrienos B4 dos neutrófilos e de interleucina 1 dos monócitos. Esses dois mediadores de inflamação são capazes de contribuir para eventos inflamatórios que ocorrem no processo da artrite reumatóide.
De acordo com o pesquisador, muitos pacientes que consomem suplementos de w-3 por um tempo maior ou igual a 12 semanas, são capazes de diminuir ou descontinuar suas doses de drogas não esteróides antiinflamatórias. Os ácidos graxos w-3 não apresentam toxicidade nesta dosagem diária e geralmente são bem tolerados.
Mantzioris et al (6) investigaram a eficácia de uma dieta rica em ômega-3 em elevar as concentrações do ácido eicosapentaenóico nos tecidos e em suprimir a produção de mediadores inflamatórios em 15 homens voluntários. Os indivíduos se alimentaram por 4 semanas com uma dieta rica em ácido a-linolênico (óleo de linhaça utilizado como óleo de cocção, margarina, molho de salada e maionese) e EPA e DHA (óleo de peixe utilizado em petiscos e salsicha), além de alimentos naturalmente ricos nesses ácidos graxos, como as sementes de linhaça e peixes como salmão e sardinha. Os resultados finais do estudo mostraram que o consumo de EPA e DHA atingiu 1,8g/dia e o consumo de ácido a-linolênico foi de 9,0g/dia. Esses consumos levaram a um aumento de 3 vezes de EPA no plasma, plaqueta e nos fosfolipídios celulares mononucleares. A síntese de tromboxane B2, prostaglandina E2 e interleucina 1b decresceu em 36%, 26% e 20% (P < 0,05), respectivamente.
Estudos clínicos têm mostrado também uma redução significativa da dor em pacientes com artrite reumatóide tratados com vitamina E. Essa vitamina também teria um efeito positivo sobre as doenças autoimunes por reduzir mediadores pró-inflamatórios (7). Portanto, uma combinação dos w-3 com a vitamina E parece ser importante.
É sempre bom lembrar também que ácidos graxos poliinsaturados como os w-3 são susceptíveis à oxidação, devido a presença de moléculas altamente reativas (radicais livres). Por isso, em dietas ricas em w-3 é importante evitar a oxidação através da ingestão adequada de nutrientes antioxidantes como a vitamina E. Relatos antigos (8,9) já citavam a importância da suplementação ou adição de vitamina E em produtos enriquecidos com ácidos graxos w-3.
A inclusão dos w-3 na terapêutica da artrite reumatóide
Com base em todas as informações aqui apresentadas, fica claro que a dieta por ser o único fator determinante de saúde que está sob nosso controle deve ser considerada no tratamento de indivíduos que sofrem de doenças autoimunes. Sendo assim, considerando que os benefícios dos ácidos graxos w-3 na artrite reumatóide têm sido bem documentados e que países como Canadá, Reino Unido, Dinamarca, Austrália e Japão recomendam o aumento do consumo desses ácidos graxos na alimentação, estabelecendo RDAs que podem chegar em média a 2g/dia, convido a todos os profissionais da saúde a incentivar seus pacientes a adquirirem o hábito de consumirem de forma freqüente peixes e óleos ricos em ômega-3, de forma que esses ácidos graxos passem fazer parte da terapêutica da artrite reumatóide.
Referências Bibliográficas:
1 - Calder, P.C.; Zurier, R.B. Polyunsaturated fatty acids and rheumatoid arthritis. Curr. Opin. Clin. Metab. Care, v.4, n.2, p.115-121, 2001.
2 - James, M.J.; Cleland, L.G. Dietary n-3 fatty acids and therapy for rheumatoid arthritis. Semin. Arthritis Rheum. , v.27, p.85-97, 1997.
3 - Volker, D.; Fitzgerald, P.; Major, G.; Garg, M. Efficacy of fish oil concentrate in the treatment of rheumatoid arthritis. J. Rheumatol., v.27, n.10, p.2343-2346, 2000.
4 - Calder, P.C. Polyunsaturated fatty acids, inflammation and immunity. Lipids, v.36, n.9, p.1007-1024, 2001.
5 - Kremer, J.M. n-3 fatty acid supplements in rheumatoid arthritis. Am. J. Clin. Nutr., v.71, n.1, p.349S-351S, 2000.
6 - Mantzioris, E.; Cleland, L.G.; Gibson, R.A.; Neumann, M.A.; et al. Biochemical effects of a diet containing foods enriched with n-3 fatty acids. Am. J. Clin. Nutr., v.72, n.1, p.42-48, 2000.
7 - Tidow-Kebritchi, S.; Mobarhan, S. Effects of diets containing fish oil and vitamin E on rheumatoid arthritis. Nutr. Rev., v.59, n.10, p.335-338, 2001.
8 - Dyerberg, J. Linolenate: derived polyunsaturated fatty acids and prevention of atherosclerosis. Nutr. Rev., v.44,n.4, p.125-134, 1986.
9 - Ribeiro, L. Prostaglandinas e ácidos graxos ômega 3 na prevenção da aterosclerose. In: Congresso da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 45, Rio de Janeiro, 1989. Arquivo Brasileiro de Cardiologia, São Paulo, v.54, n.4, p.279-281, 1990.
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* Pesquisadora, Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos pela ESALQ-USP, Doutor em Ciência da Nutrição pela Faculdade de Engenharia de Alimentos-UNICAMP e Pós-Doutorada em Nutrição pela ESALQ-USP.
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